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Um Absurdo Sem Fim

06
Jul17

Góis

Loís Carvalho

      

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         O telemóvel tocou. Na realidade há dias que ansiava por aquela chamada. “Precisamos de ti”, disseram do outro lado. Era exactamente por aquelas palavras que ansiava. Abri o armário e tirei aqueles calções azuis escuros e a camisola azul que há quase três anos que não vestia. Calcei as meias de novo e com aqueles pequenos penduricalhos azuis agarrados por um elástico desci as escadas e avisei a minha mãe que só voltava amanhã para almoçar, precisavam de mim lá. Ela não me contrariou, como poderia se eu estava a dar um pouco de mim sem querer receber nada em troca.

            Assim que lá cheguei todo se tornou claro para mim. É óbvio que já tinha visto a dimensão daquela catástrofe através das notícias, não havia outro assunto nas televisões nos últimos dias. Contudo, ver com os meus próprios olhos tornava-o ainda mais chocante. Olhava à minha volta e o verde que outrora cobria todos aqueles montes tinha-se transformado em negro como uma noite sem estrelas. Sentia-se o cheiro a queimado no ar e ainda era possível ver algumas colunas de fumo à distância. “Vais servir refeições, no entanto prepara-te. Vais trabalhar a noite toda”, foram as palavras que ouvi ao longe enquanto me tentava adaptar àquele tão estranho mundo.

            Era o fim da tarde quando chegaram as primeiras panelas com comida e com elas vieram os primeiros bombeiros. Cumprimentava-os um a um, com um boa tarde e um sorriso. Olhava para eles e sentia o cansaço e a dor de muitos, estavam ali há horas sem dormir, a combater num combate desleal e onde eles são verdadeiros heróis. A sua força atravessava o limite normal de qualquer humano. Que podia eu fazer mais que tentar distraí-los durante breves instantes? Enquanto a noite caia chegavam cada vez mais, eram polícias e militares, bombeiros de todas as partes do país e alguns do nosso país vizinho. Dávamos dois dedos de conversa e seguíamos a fila, eles jantavam e eu continuava a tentar cuidar o melhor que podia deles. Alguns já não viam comida fazia um dia, o combate às chamas tinha sido tão forte e intenso que não houve tempo para comer grande coisa. Umas bolachas aqui, uma sandes ali confidenciavam-me por entre garfadas do prato que devoravam em breves instantes.

            “Podemos comer mais um pouco?”, perguntou um jovem meio envergonhado. “Enquanto houver no tacho não nego comida a ninguém, ainda mais a vocês!”, como podia imaginar negar comida a quem está a lutar por algo que muitas vezes nem é seu? “Já não temos mais nenhum tacho aqui, temos de pedir mais”, sussurraram-me ao ouvido. Olhei para a fila à minha frente, ainda faltavam tantos e outros tantos estavam por vir. Porra, senti a raiva a crescer dentro de mim. Como podia faltar comida para eles? Como podíamos ter permitido isto? Como é que lhes vou dizer que já não tenho mais, que vão ter de esperar depois de terem estados horas debaixo do sol, a tentar apagar um fogo que parece não ter mais fim. Lá teve de ser e cerca de uma hora depois lá apareceu um pouco mais de comida para reconfortar os seus estômagos.

            A noite tinha chegado e com ela o frio também. “Vou fazer café”, disse enquanto me dirigia com uma garrafa de água de 1,5L para o gerador. Estávamos no alto da serra e a única maneira que tínhamos para aquecer a água é através do calor residual produzido pelos geradores. É incrível como estas pequenas coisas falham nas horas mais importantes. “Tem por aí algo quente? E um cobertor?”, perguntou um GNR já tinham umas longas horas do jantar. Aquela espécie de café era a única bebida “quente” para aquela noite gelada.

            A noite passava e com ela algumas visitas para um café quente. Ao longe o clarão da manhã começava a nascer. A aragem que corria cortava a face como se de espinhos se tratassem. Embrulhado num cobertor olhava aquelas montanhas, outrora tinham sido verdes e agora não mais que carvão eram. Como tudo pode mudar em breves instantes, como a natureza é tão frágil e tão forte ao mesmo tempo. Somos tão pequenos comparados com aquilo que nos rodeia.

            “Ainda há algo para comer?”, despertou-me uma voz dos meus pensamentos. Olhei para o lado e reconheci aquela farda vermelha, era mais um bombeiro. Mais um daqueles heróis que combateu incansavelmente aquele incêndio. Não foi o único, centenas deles passaram por ali. Olhei o seu cansaço, as suas dores, a sua pele estava da cor da cinza. E ali estava eu, a fazer o que podia, a tentar melhorar as suas vidas, a tentar ajudar aqueles que nos estavam a ajudar a todos. Olhámo-nos nos olhos, não dissemos nenhuma palavra, ambos sabíamos o que queríamos dizer. Um obrigado não chegava…

 

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Lòís Carvalho, 20 anos, Mundo. Existe um sem fim de sítios onde ir, pessoas por conhecer, vidas para viver, sonhos para alcançar, mundos por descobrir.

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